Saí tão atordoada que a luz me cegou com sua força e me peguei persignando- me involuntariamente. Lançando um rápido olhar para trás a avistei encostada ao batente, olhos semi- cerrados e lábios curvados num sorriso cansado.
Terminada a compra, durante a qual olhei para todos os lados esperando que Drácula saltasse sobre mim de qualquer lugar, voltei para o quarto e recebi instruções de usar o crucifixo ao redor do pescoço e guardar faca e alho num lugar seguro. E, então, era esperar.
As horas arrastaram- se e o sol nunca demorou tanto para adormecer, mas, afinal, a escuridão chegou e nosso quarto foi iluminado por luz de abujur e de luar, nada mais.
A área ao redor da mordida no pescoço de Lúcia se tornara vermelha e começava a inchar, mas ela escondia bem a dor que sentia. Paradas no meio da sala, eu fui a primeira a ouvir o silêncio, sim, o som do silêncio que pode ser tão estridente quanto panelas caindo de uma prateleira, aquele som que é como um murro na boca do estômago.
Depois, neblina fina e branca deslizou sob nossa porta de entrada e Lúcia me ordenou que ficasse atrás dela. Quando a neblina ganhou forma foi que senti seu odor cheirando a livros velhos, gastos, mas vivos em sua maldade antiga.
Um homem de meia- idade, talvez um pouco mais, alto e imponente, carregado de poder e severidade materializara- se na nossa frente. Os cabelos eram negros, os olhos cinzentos como os de um lobo feroz, e a boca, para meu profundo desgosto, lembrava por demais a de Lúcia.
Sim, realmente, era um homem bonito e a voz podia- se chamar de envolvente quando disse:
__ Oras, oras, aqui está a ovelha negra da família, a vampira que não deu certo! Ah, Lúcia, deixe de ser durona, é tão simples ceder, e eu adoraria te- la junto a mim. Podemos levar sua amiga se quiser.
__ Fique longe dela, monstro! não irei, não iremos à lugar algum.- Lúcia mantinha uma firmeza e entonação rascantes, ácidas, e me empurrava para trás com o corpo rígido.
Ele caminhou em nossa direção com um sorriso enviesado, uma das mãos estendidas sugestivamente para Lúcia:
__ Sabe, minha bela, vim tão urgentemente hoje, senti seu desejo a me chamar tão poderosamente que nem me alimentei. Tu me darás um pouco de sangue, não?
__ Não tenho sangue para lhe dar.- sua voz falhou, repentinamente cheia de desconfiança.
__ Mas sua amiga tem... - Drácula sibilou entre dentes, fazendo- me arrepiar.
Muito rápida ela atirou- se sobre ele com a velocidade de um gato atiçado, uma rajada de escuridão e gritou:
__ Você não vai desgraça- la, filho do mal, filho do Dragão!
Ah, meu Deus, como Lúcia pode julgar- se à altura para falar- lhe daquele modo, justo à ele, o mestre, o pai de toda uma legião. Drácula desferiu um golpe brusco contra ela com seu braço de ferro e Lúcia, frágil perto daquela potência esmagadora, voou e bateu com tudo contra uma parede, escorregando até o chão.
__ E, agora, à você!- ele virou- se para mim e sorriu com todos os dentes a rebrilharem.
O que poderia eu fazer naquele momento? Calculei que não adiantaria correr, ele me alcançaria de alguma forma e não me imaginava, sinceramente, brincando de pega- pega com Drácula, em pessoa, enquanto minha protetora jazia desmaiada na extremidade oposta.
Por isso, e também porque minhas pernas estavam trêmulas e pregadas ao chão, fiquei ali, parada, e segurei o crucifixo apontado diretamente para ele. O vampiro chegou muito próximo, o belo rosto secular convertido num esgar de dor, e ficou a rondar- me.
O crucifixo o mantinha longe, não sei por quanto tempo, ainda, mas seu hálito, por si só, ameaçava matar- me.