Seu rosto estava contraído e sujo de sangue, a gengiva recuara sobre os dentes deixando- os maiores e seus olhos eram vermelhos como se um fogo maldito queimasse por dentro deles.
__Vamos embora!- ela ordenou- me e notei que até sua voz se tornara mais áspera a gutural.
Todo o percurso de volta fizemos em silêncio, sem nos encararmos por um segundo sequer. Uma vez em nosso quarto, Lúcia sumiu dentro do banheiro e, quando voltou, vinha asseada; rosto limpo, dentes brancos, gengiva normal ( ou quase, já que ela era uma vampira) e olhos, simplesmente, verdes e plácidos.
Ela sentou- se a meu lado e acercou- se de mim com cara de quem comeu e não gostou (talvez, literalmente, pensei) e perguntou:
__E, então, o que achou da performance?
Percebi que ela estava sofrendo horrendamente por dentro e fui tão franca quanto pude:
__Lúcia, querida, queridíssima criatura do meu coração, desculpe- me, mas nunca mais quero repetir a experiência.
__Sim, como pensei, desculpas deveria pedir eu, sabe, é horrível!!!
Pouco tempo levou até que o sol se erguesse no céu e acabamos indo dormir as duas, eu no sofá e ela na cama.
Depois disso, a única coisa marcante, mesmo, foi o próprio encontro com drácula e, que encontro! Durante dias, semanas, talvez, meses, nós o procuramos por toda a parte.
Corremos cidades atrás de notícias suspeitas e torramos o dinheiro que possuíamos e que fora produto de nosso roubo, até o ponto de termos que economizar. Certa vez, Lúcia chegou a sentir latejar a cicatriz em seu pescoço, mas precipitou- se a confeccionar estacas variadas, um verdadeiro arsenal, e o espantou por uns tempos; cheguei, seriamente, a crer que ela pirara em função da obsessão por voltar à vida, mas logo ela parou o fabrico das armas e tentou manter- se relativamente calma.
Muitas vezes, desde certo momento, eu a vi manter- se de olhos fechados, dia e noite, e soube, quase que instintivamente, que ela pensava nele com ardor para atraí- lo até nós.
E teve, finalmente, o dia em que ela ergueu- se com o olhar rápido, assustado e cheio de ânsia, apertando aferida com sofreguidão e, apertando meu braço com força, sussurrou:
__Prepare- se, ele virá, se é que já não está muito próximo!
Eu, nesse instante, senti- me curvar sob o peso da verdade, porque, afinal, eu viera até ali para encara- lo e enfrentá- lo, logo eu, pobre mortal! Pensar em Lúcia atracando- se em luta feroz com o tal vampiro era como comparar dois pesos pesados de igual categoria, mas e eu?
Tremi, arrepiei, rezei, mesmo, e chorei em silêncio, gestos mudos que, na verdade, pretendiam gritar. Mas, ainda era dia e Lúcia convenceu- me a buscar uma boa faca, cabeças de alho ( coisas que eu poderia comprar em qualquer supermercado, me disse ela, como se eu não soubesse!) e um crucifixo numa corrente forte e grossa.
__ Mas estas coisas podem te fazer mal, Lúcia!- lembrei à ela.
Sem sorrir, soturna, abandonada até mesmo pela sua sempre presente ironia, ela me disse, claramente:
__Está será a grande noite, a noite mais importante de toda uma vida e não haverá mocinhos ou bandidos; querendo ou não Drácula é meu mestre, meu pai na morte, e ele estará muito próximo de mim, pode ser que eu não termine o que comecei. Proteja- se de nós, de nós dois, se puder e se for necessário!
Então, chegando- se junto de mim, sussurrou como se desejasse não ouvir as próprias palavras:
__ Caso eu saia do sério esta noite, não ouse duvidar, me mate e acabe com isso de uma vez, se não puder ter paz nesta vida, terei na morte verdadeira que é sempre uma benção final. Você sabe, já lhe disse, mas repetirei de novo, enterre a estaca até que ela transpasse todo o coração, todo o corpo; lembre- se que o coração fica do lado esquerdo; em seguida, decepe a cabeça e ponha alho dentro da boca. Talvez, tudo vire pó, então!Reze todas as orações que conhecer durante todo o processo, certo? Agora, vá!