Lúcia insistiu em andar sob o sol durante alguns dias, mas era óbvio que aquilo lhe causava muita dor, sem contar que ela estava usando preto dos pés à cabeça e isso chamava muita atenção sobre nós.
Então, passamos a descansar durante o dia; ela descansava, literalmente, e eu pirava presa num quarto, olhando para minha amiga, pálida e inerte na cama, respirando muito levemente e sei lá como.
Eu acabava dormindo de tanto tédio, e ,de vez em quando, me sentava de frente para ela e a olhava longamente em seu sono de morta- viva.
" Minha cara, eu me repetia todas as vezes, olhe bem para isso, poucos, poucos mesmo, fizeram isso, em séculos, e viveram para contar depois!"
A primeira grande coisa que fizemos foi sacar dinheiro no banco, ou melhor, saquear o banco. Tudo foi muito simples, Lúcia tinha algumas habilidades, agora, e as usou com maestria.
Era de noite, como sempre, e nós paramos em frente do banco, Lúcia entabulou uma conversa com o guarda e, depois, com a força sobrenatural de todos os vampiros, bateu- lhe a nuca na parede, desarcordando- o.
Ela abriu a porta com as chaves dele e trabsformando- se em neblina, esgueirou- se para dentro. Desativou as defesas do lugar e pôs os outros seguranças fora do ar à semelhança do primeiro.
Deslizando pela fresta sob a porta do cofre, passou- me muitas notas de dinheiro que guardei em minha bolsa. Feito isso, patrimos, muito calmas, para longe dali. Como num sonho roubaramos o banco e tudo terminara bem, sobrenaturalmente bem.
Na manhã seguinte, Lúcia deitara- se para descansar e recuperar energias e eu abri o jornal; a primeira manchete tratava do roubo do século: um banco havia sido furtado e não havia sequer cheiro dos assaltantes.
Li isso para ela e seu rosto se torceu num sorriso zombeiteiro:
__ É, minha cara, "ossos" do ofício! Quando eu for novamente humana terei de me lembrar que não posso mais invadir bancos e levar coisas que não me pertencem. Uma peninha!
Virou- se de bruços e caiu num sono pesado.
A segundo coisa realmente interessante naqueles dias foi minha presença observadora em uma de suas caçadas. Sim, eu vi tudo com meus próprios olhos e vou relatar aqui.
Certa noite, quando Lúcia disse- me iria procurar sua vítima para o jantar( não é muito gracioso dizer isso, né?), manifestei meu desejo de acompanha- la.
__ Você não apreciar meus hábitos noturnos, querida!- ela sorriu com malícia, doçura e pesar, piscando um olho em seguida.
__ Entretanto, é o que quero!- afirmei com veemência.
__ Então, venha, não pretendo dissuadi- la, você sabe!- e deu de ombros.
Eu segui seu vulto negro até as proximidades de uma "boîte", porque Lúcia precisava ficar próxima a grandes aglomerações de pessoas. Uma vez ali, nos ocultamos nas sombras à alguma distância da saída do estabelecimento.
Quinze, vinte minutos se escoaram com uma lentidão agressiva e só me mantive calma porque olhei para Lúcia, com sua silhueta completamente imóvel e seu semblante sereno, fechado, absorto e pensei nos minutos longos que se abriam frente à ela pela eternidade como um campo vazio e coberto de neve.
Então, repentinamente, as portas se abriram e uma imensa leva de gente saiu; Lúcia pô- se a observar com cuidado e olhos muito verdes, depois apontou- me um moço alto que vinha em nossa direção e preparou- se para ataca- lo.
Eu, por minha vez, colei- me o máximo que pude à parede tentando misturar- me às sombras e prendi a respiração. Quando o moço passou, ela saltou- lhe sobre as costas e cravou os dentes em seu pescoço, desvairada, provocada pela visão de refeição.
Curvei- me para a frente afim de ver melhor, mas quando pude, ela deixou- o cair molemente na calçada e virou- se para mim. Ah, Deus, gostaria de jamais ter visto o que vi, porque até hoje repriso a cena em meus pesadelos.