__Como isso te aconteceu?-perguntei abobada.
Ela pareceu sorrir, mas seus olhos pareciam cheios de pesar:
__Foi ontem à noite, em meu quarto mergulhado na escuridão, não pude fugir. Me mordeu até que tudo sumisse de meus olhos e fiquei muito tempo desacordada, depois fui embora de casa, pois tive medo de machucar alguém por lá! Drácula veio em pessoa, pude sentir que era ele, seu cheiro era antigo, primitivo, parecia- se com terra e poeira; o hálito, oh, transpirava podridão!
Suas mãos, como garras, me apertavam o braço com tamanha força que achei mo arrancaria. Desvencilhei- me dela, mas estava de tal forma encantada com aquela nova realidade que queria saber tudo o que lhe ocorrera. Tentando não encarar aqueles olhos insistentes, brilhantes e um pouco melancólicos, eu lhe perguntei:
__Então, você está, está, bem...está morta?
__Não estou viva como você, mas não morri como os mortos, entende?Estou no limiar, nem lá nem cá! Há pessoas que são infectadas por milhares de doenças e só têm que esperar a morte, eu fui infectada pela maldição dos mortos- vivos e só tenho que esperar pela eternidade.
Encarei seu rosto e acho que vi, ali, a chama dessa tal eternidade e a achei fria e longa; naquele instante dei graças aos céus por existir a morte. Resolvi fazer a pior pergunta que poderia me surgir e a fiz de uma só vez:
__Lúcia, você já mordeu alguém?
Ela se inclinou para a frente, excitada e a um só tempo enojada, sua voz saiu como um fino e estridente gemido:
__Sim, esta noite mesmo! Não transformei a pessoa num ser como eu, desprezível, mas tive de faze- lo!
__Lúcia!- minha voz tremeu ao dize- lo e eu me afastei de um pulo.
Dessa vez ela, realmente, se agastou e seu corpo se eriçou como um gato irritado, depois me pegou pelos ombros e gritou:
__Eu preciso disso, você sabe, eu preciso disso para sobreviver, entendeu! Só há uma pessoa no mundo que eu jamais machucaria e essa pessoa é você, então não tenha medo de mim, não me deixe! Só você pode me manter ligada a este mundo!
E, depois acrescentou em tom confidencial:
__Preciso de sangue quente pra viver, agora, e minha vida já está desgraçada, minha querida!
Suas palavras calaram fundo em meu peito e eu acariciei seu rosto. Então, recuperando a razão ela disse:
__ Não voltarei à escola nem à minha casa, dormirei de dia em algum lugar e sairei à noite. As coisas mudaram e a eternidade não me perece tão covidativa.
Sem mais palavras e dando- me um sorriso amargo ela se virou, pôs o capuz sobre a cabeça e desapareceu através da porta de entrada. Corri na janela e a vi caminhar rápida e decidida , temerária sob o sol que jamais poderia encarar de novo.
Depois daquele dia eu a vi muitas vezes e a encontrava sempre de madrugada, em meu quarto, após sua caçada noturna. Ela batia de leve na janela e eu a abria; ela pulava para dentro agilmente e conversavamos um pouco; era incrível conversar com ela, ver aquela maneira lenta, desleixada, imortal com que Lúcia se movia, com que falava e sorria, justamente a maneira de quem conquistou todo o tempo do mundo.
E, então, era mortificante e aterrorizante ver que ela estava morta para mim, saber que quando o sol se erguesse ela dormiria nalgum covil como um cadáver e ficaria atormentada por seus pecados noturnos, saber que ela só despertaria quando a lua ganhasse o céu e que deslizaria nas sombras.
Apesar de tudo isso estar em cada linha de seu rosto forte e no brilho dos olhos claros, ela jamais reclamava, tentava amar sua nova vida, tentava matar sua humanidade.
Entretanto, na noite em que esta história começa de forma efetiva, ela entrou com tal sofreguidão em meu quarto que eu senti medo. Lúcia manteve- se de pé, muito ereta, muito tensa e imponente.