Metamorfose
As lágrimas que escorrem
são folhas lentas caindo no outono
e meus olhos distorcidos como janelas na tempestade
sei que procuram por algo, perdidos.
Meus sentidos se alongam,
tomam a forma de dedos longos e finos
que tateiam na noite ociosa,
procurando sossego.
Sou uma raposa perdida na noite,
uma águia estranha no ninho,
minha cabeça plana nas nuvens
e meu corpo sofre por não poder alcança- las.
Como um anjo desolado,
sentado na lápide, só pelo caminho,
também eu oscilo,
uma frágil porcelana no limiar do vazio.
Também eu, parte de mim mesma,
me deito no chão da floresta,
me confundo entre as folha caídas das árvores,
mergulho entre minhas lágrimas.
E quanto mais me escondo e confundo,
mais enrodilhada fico
e menos livre sou,
escrava de mim mesma.
Desesperada, aperto as folhas secas
como quem engole o choro
e derramo sobre mim o pó,
sujando, assim, meu vestido branco.
Minha alma clara se torna turva,
meus olhos, sinto-os tão plenos
que por dentre as altas copas contemplo o Universo inteiro,
e, meus dentes batem de frio e medo quando me descubro só.
Não posso recuperar o tempo passado
nem alcançar a oportunidade perdida,
aos poucos, é meu corpo quem clama por vida,
crio raízes e me transformo numa parte da floresta.
E ouvirei, ainda, teus passos,
pois respiro com a terra,
vivo, agora, nesta simbiose,
integrada à terra, posso sentir tuas carícias.
Me perdi, me confundi,
me esqueci, foi tão lento
que eu não percebi:
aos poucos, me misturei e diluí.
Meus olhos são lagos refletindo o arco- íris,
meu corpo misturou- se à terra,
meus dedos se tornaram raízes
procurando, em tua alma, algum abrigo contra o tempo.